terça-feira, 15 de novembro de 2011



3º Encontro:
Crítica nos Jornais

Moderador: Francisco Belard

Mesa:
António Guerreiro
David Teles Pereira
José Mário Silva
Paulo da Costa Domingos
Pedro Mexia

25 de Novembro

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Edifício ID
18h-20h

sábado, 29 de outubro de 2011

ANTÓNIO BARAHONA, por David Teles Pereira

Habituámo-nos a ver a intemporalidade à distância de uns quantos séculos. As palavras de Tucídides, que nos falavam de “uma obra que não foi concebid[a] para ganhar prémios ao ser ouvid[a] de momento, mas como um legado para sempre”, são interpretadas como se realmente tivesse que passar um “para sempre” pelas obras para estas serem dignas da tão honrosa memória.
António Barahona é um poeta intemporal, porque esta palavra deve necessariamente ter o sentido que Tucídides lhe deu, mas deve também ter outro sentido, o da comunicação vibrante entre o antigo e o novo, entre o consagrado e a promessa. Neste sentido, este “poeta limpo, obstinado” que mede “linha a linha o universo que o seu gesto d’escrita construiu”, ocupa um lugar na poesia portuguesa que até agora esteve sempre vago.
António Barahona é um dos poetas do Café Gelo, “um café à beira do abismo: conversas incendiadas, sismo a sismo, no desabar da época”, é amigo de Cesariny e de António José Forte, este último um poeta “com a morte perto e grande coração”, é o homem que ama “a mesquita grande de Lisboa, as suas colunas de luz pétrea e a cúpula com os noventa e nove nomes de Deus”. Mas é também o velho principiante cuja “aprendizagem, como poeta, foi lenta e dolorosa”, é o “bruxuleante jovem, muito velho”, é o poeta que, da sua idade, é capaz de nos surpreender com versos de uma paixão a ferver de juventude: “Contigo nos meus braços sou capaz de atravessar paredes, tornar-me invisível, fazer milagres”.
É raro, muito raro mesmo, um poeta com o percurso de António Barahona fazer aquilo que ele fez em “O Som do Sôpro” ou em “Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea”. Entre outras coisas, há um desejo que atravessa estes dois livros, o desejo da comunicação com os poetas mais novos e com a sua poesia, na qual o António se coloca tanto na posição de mestre como na de aprendiz. Tão raro é que tão poucos o têm notado, provavelmente vítimas do hábito de vermos os poetas consagrados mais preocupados em ultimar os detalhes da posição de estátua que querem ocupar para a posteridade, do que em estreitar um abraço aos outros. E, como num abraço, António deu e recebeu.
Julgo ser esta a posição que ocupo aqui hoje, não a de editor do António Barahona num dos melhores conjuntos que já tive o prazer de publicar com o Diogo na Criatura, não a de crítico que, por vezes, tem escrito sobre poesia, mas a de jovem leitor e poeta que encarecidamente agradece a António Barahona o este não ter estado à distância a que todos os outros, ainda que legitimamente, nos têm votado. Assim, com este poeta aprendemos algumas essencialidades sobre a poesia: “Não ter pressa, excepto quando se trata de encontros com Deus.”; “O homem antes de falar cantou sílabas reveladas sem semântica e só depois falou”; “Dizem que poeta não é uma profissão, mas eu digo que poeta é, sim, a profissão maior, repleta d’amor que não se esfuma”.
Mas, no meio de tudo isto, o que acaba por ser surpreendente, principalmente para os mais novos, é que o António é, como bem referiu o Manuel de Freitas, um dos grandes novíssimos da nossa poesia. A sua escrita é, com o seu acordo ortográfico próprio e perfeitamente fixado, um esforço de movimento, de eco, tanto no sentido sonoro como no sentido ideal desta palarva, e, também, de aprendizagem que “obriga”, como o poeta nos diz, “à constante reescrita do poema”. É na “Grande-Guerra-Santa da prosódia”, a expressão é do autor e não minha, que se constrói a matéria do poema e para tal, primeiro que tudo, “pesam-se os tons das sílabas”. A lição é simples, ter esta humildade já não o é tanto e, muito menos, é conseguir fazê-lo.
Por isso, tenho que aproveitar esta oportunidade para dizer o mesmo que Yarir disse no seu poema de homenagem a Al Farazdaq: o António Barahona, enquanto poeta, não descansou enquanto não deixou para traz de si, em toda a fera, o golpe de um trovão.

No EXPRESSO, 29 de Outubro de 2011:

terça-feira, 25 de outubro de 2011

E, mais tarde, no mesmo dia:


2º Encontro:
António Barahona

Moderador: Golgona Anghel

Mesa:
David Teles Pereira
Gil de Carvalho
Luís Gomes
Manuel de Freitas

28 de Outubro

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Edifício ID, r/c
18h-20h

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um depoimento: GOLPE D'ASA

A Golpe d’asa estará no começo do mês que vem, Novembro, à disposição de quem a quiser receber. Uma das questões colocadas por António Guerreiro no primeiro encontro destas Poéticas Contemporâneas respeitava à razão de se fazer mais uma revista de poesia quando existe um número significativo delas. Uma questão provocatória, claro, talvez para testar os meus nervos, emissária de uma revista que nem sequer podia ser comprovada nem, algo importante, confrontada. Presumo que, à minha semelhança, também António Guerreiro achará que em termos de publicação de poesia nada será em demasia, apenas é em demasia o que é mau e, aí, nem de poesia poderá ser chamada. É qualquer coisa de gato em vez de lebre, de maruca em vez de pescada, mas que não enganará o palato dos leitores experimentados, dos que conhecem os prazeres do deleite e rejeitam as torturas do embuste.
Em jeito de síntese, tentei expressar em que medida é que a revista poderá constituir uma novidade e em que aspectos se aproxima de outras. Em suma e por objectivos axiais, pretende recuperar alguns poetas do passado recente que tenham, no nosso entender e contando sobretudo com a nossa sensibilidade à aragem do tempo, caído em esquecimento ou que para lá caminhem; por outro lado, está atenta à escrita dos novos autores. Sei que existem revistas que desempenham este papel de divulgadoras e, até mesmo, de catapultadoras de autores completamente inéditos. Sendo Portugal um país relativamente pequeno e sendo ainda mais pequeno o acaso de nascer uma poeta ou um poeta, não nos poderemos dar ao luxo de cairmos no ridículo de pretendermos que tenham ocorrido cópulas providenciais. Bastar-nos-á, como disse, publicar novos poemas de autores que vão sendo conhecidos, vão sendo lidos. Se o acaso nos conceder encontrar um novo nome que mereça a nossa atenção, então estaremos a cumprir o papel que tradicionalmente é atribuído às revistas.     
O que me parece de maior novidade, e sem me querer alongar muito, é a geminação de textos críticos aos novos ou éditos poemas, arriscando, não raras vezes, primeiras leituras sobre a escrita de autores que ainda não têm lastro crítico ou que, no caso dos éditos, saíram do foco, estão a sufocar nos fundos de catálogos, nas catacumbas das bibliotecas ou, ainda mais revoltante, nas casas dos poetas que ainda estão vivos mas que a voracidade deste mundo editorial julga ter conseguido passar atestados de óbito. Para além disto, terá um caderno central por número, dedicado à razão de novo/provecto autor, alternadamente, entre outras coisas que poderão a seu tempo ler.
A questão da necessidade de haver mais intervenção crítica foi pertinentemente colocada e discutida em conjunto com o auditório. Longe de nós considerarmo-nos arautos dessa necessidade, mas tentaremos contribuir na medida das nossas possibilidades. É uma questão que pessoalmente me diz muito. Contra mim mesma falo, que durante anos fui uma leitora politicamente passiva – este advérbio corresponde ao meu entender de intervir activamente na coisa pública. Os leitores demitem-se, salvo raras excepções. E eu tenho-me cruzado, felizmente, com óptimos leitores de poesia que me têm proporcionado momentos de conversa estimulantes, encantadores, instigantes. A poesia deveria ter dois momentos de leitura: a íntima e a pública, para que ela cumpra o seu objectivo de ir mudando o mundo de forma mais consciente e a luta não se faça só pelo necessário naufrágio mas também pelo sufrágio, pelo direito à palavra de leitor, pela debate de ideias, de sentimentos, de gostos. Talvez encontre aqui a resposta à pergunta inicial: porque razão? Por isto só, por se abrir mais um café, entre outros que já existem, onde possamos votar o nosso tempo, publicamente, à poesia.

Ana Salomé